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Chamada para Dossiê: Cenografias da voz, ontografias do sentido: corpo e enunciação, historicidade e ontologia

 

Organização: Roberto Zular (USP), Fábio Roberto Lucas (UFPR) e Ana Carolina Cernicchiaro (UNISUL)

Pensar a experiência literária ligada à enunciação e à voz nos coloca diante de um desafio que articula e transforma os campos de investigação relativos ao corpo, à historicidade e à própria ontologia. Afinal, a performance da enunciação literária faz se encontrarem corpos, afetos, contextos e temporalidades heterogêneas, correlacionando os diferentes materiais, linguagens e mundos que ela mobiliza e que a mobilizam. Entra-se assim em um fluxo de re-enunciações, donde deriva a noção de historicidade radical (Meschonnic, 1982), que coloca em questão não apenas os modos como lemos, mas a própria ontologia da escrita e da leitura, abrindo um campo de investigações que nomeamos ontografias do sentido. Passa por aqui uma imbricação em diversos sentidos do aparelho formal da enunciação (Benveniste, 1974), das heterogeneidades enunciativas (Authier-revuz, 1984), da força performativa da linguagem (Austin, 1962), da vocalidade (Zumthor, 2007), do oral e do ritmo (Meschonnic, 1982), da equivocidade ontológica do signo (Maniglier, 2006). Em todos eles, em diferentes graus e modos, somos levados a uma experiência da enunciação na qual os pontos de vista e as posições enunciativas (de personagens, narradores, leitores etc.) estão sempre em descompasso, em variação no corpo-a-corpo da enunciação, do leitor e dos seres de ficção. Com isso, torna-se necessário também repensar os modos de acoplagens entre o corpo e a experiência literária. Nessa região ontológica equívoca, a posição-sujeito da enunciação se torna uma expeausition, uma vibração de um ato de pele, para falar com Jean-Luc Nancy (2013) ou ainda o lugar paradoxal da voz (Lacan, 1994; Dolar, 2006), que percorre diferentes circuitos de sentidos e afecções (como a voz e o olhar), e os acoplam uns aos outros, reinventando as forças e formas de relação entre eles, bem como entre sensações corporais e as materialidades (da fala aos recursos digitais) acoplados à performance. 

Voltamos aqui à modulação entre escalas e grandezas heterogêneas de fluxos de matéria, energia, tempo e espaço, constituindo corporalidades heterotópicas (Cesarino, 2016) ou pós-orgânicas (Haraway, 2016). Ora, essa ontologia relacional e equívoca da enunciação literária fricciona temporalidades heterogêneas da escrita e da leitura, o que nos conduz à historicidade da experiência literária, à sua dimensão histórica, não como controle do possível, mas como campo de reverberação do sentido no qual regimes heterogêneos de relação com o tempo (regimes de historicidade) são problematizados. Se a resposta à multiplicidade do signo, ao seu valor variável, ao seu sentido contextual, tem sido cínica (como um espaço anestesiado de reenvios que parecem acionar, mas, de fato, neutralizam as reconfigurações do sensível e as equivocidades enunciativas, como o conceito de “pós-verdade”), a proposta deste dossiê é radicalizar a sobredeterminação entre as séries, produzir conexões parciais e acoplagens que potencializem as implicações éticas e políticas da voz como ponto pivotante em que se articulam à enunciação literária diferentes historicidades (ou mesmo regimes de historicidade), corpos (ou regimes de corporalidade), materialidades, afetos, sentidos, regimes de imaginação e ontologias. O dossiê se abre assim às múltiplas questões oriundas da ecologia conceitual aqui exposta.

 

 
Publicado: 2019-10-10 Mais...
 

Chamada Revista Crítica Cultural Vol. 14, n. 3 (jul-dez 2019)

 

Dossiê: Política da crise: as universidades e a crise do pensamento

Organização: Sandro Luiz Bazzanella (UNC) e Nádia Neckel (UNISUL)

Se há algo em crise no mundo hoje, definitivamente, não é a economia. Então, o que está em crise? Nossa aposta é no pensamento como resposta à questão. Se as universidades são um dos espaços privilegiados do exercício da potência do pensamento, é no âmbito acadêmico que urge o exercício reflexivo em relação aos diversos contornos e variáveis da crise em curso.

Das práticas pedagógicas aos projetos de pesquisa entre universidades, o que vimos fazendo e trocando que caracterizariam a contraface ao obscurantismo de ideias que granjeiam as redes sociais? Pretende-se com este dossiê chamar ao debate e à produção de “novas verdades” (HARDT e NEGRI, 2014) a comunidade acadêmica que, “desmediatizada”, deve assumir a tarefa do pensamento, tão necessário, diante da crise que nos assola com ideias sem respaldo histórico, com pseudo pesquisadores enunciando “verdades” frouxas e duvidosas. A proposta é reunir textos que façam frente a tais pseudo-pesquisas embrenhadas no efeito ideológico elementar de “interpretações sem margens, nas quais o intérprete se coloca como um ponto absoluto” (PÊCHEUX, 1990) incapaz de saber-se sujeito dos discursos que o constitui.

O filósofo e jurista Giorgio Agamben nos convida ao exercício da contemporaneidade, que implica no desafio de compreendermos o tempo presente em toda sua intensidade e profundidade.  Assim, nos diz o filósofo: “A contemporaneidade, portanto, é uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias; mais precisamente, essa é a relação com o tempo que a este adere através de uma dissolução e uma anacronismo.  Aqueles que coincidem muito plenamente com a época, que em todos os aspectos a esta aderem perfeitamente, não são contemporâneos porque, exatamente por isso, não conseguem vê-la, não podem manter fixo o olhar sobre ela”. (AGAMBEN, 2009).

Desafiados a pensar e a compreender aspectos do contemporâneo “para nele perceber não as luzes, mas o escuro. Todos os tempos são para quem deles experimenta contemporaneidade, obscuros. Contemporâneo é, justamente, aquele que sabe ver essa obscuridade, que é capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente” (AGAMBEN, 2009).. O presente dossiê se constitui numa perspectiva interdisciplinar sobre o contemporâneo acolhendo reflexões advindas das mais diferentes áreas do conhecimento dispostas a exercitar a potência do pensamento diante das obscuridades da crise em curso na atualidade, sobretudo no meio acadêmico. Assim, serão bem-vindas contribuições analíticas e reflexivas advindas das ciências humanas, das ciências sociais aplicadas, das ciências naturais e exatas empenhadas em provocar a potência do pensamento na compreensão do que está acontecendo no tempo presente.

 
Publicado: 2019-04-25 Mais...
 

Chamada Revista Crítica Cultural Vol. 14, n. 1 (jan-jul 2019)

 

Dossiê: Sujeito do inconsciente / Sujeito da cultura

Organização: Maurício Eugênio Maliska (UNISUL)

Há mais de cem anos Freud inaugurava a psicanálise. Inicialmente envolvida com a clínica da histeria, a psicanálise se tornou ao longo de seu desenvolvimento uma teoria extremamente influenciada e influente nos estudos culturais. Freud, em seu tempo, já reconhecia que uma nova ciência que propusesse a escuta do sujeito não teria condições de sustentar sua prática limitada apenas aos preceitos técnicos de uma clínica, sem o diálogo e a contribuição das teorias relativas às artes, à política, à religião, à mitologia, ao social e ao cultural. Os clássicos textos Mal-estar na civilização, O futuro de uma ilusão, Totem e tabu, dentre outros, testemunham claramente uma teoria do sujeito do inconsciente a partir dessa tão delicada implicação com a Kultur – termo designado por Freud e que autores como Paul-Laurrent Assoun preferem não traduzir, mantendo sua originalidade. Tal como disse o próprio Freud1 em relação à literatura: “Após essa longa digressão pela literatura, retornemos à experiência clínica — mas apenas para estabelecermos em poucas palavras a inteira concordância entre elas”. Seria então o sujeito do inconsciente o mesmo sujeito da cultura? Quais seriam as relações entre o inconsciente e a cultura? Conceber uma prática clínica que leve em conta o sujeito do inconsciente implica em considerar o sujeito da cultura ou a própria cultura em seus múltiplos recortes? É com essas e outras questões que poderão vir à tona que propomos o próximo Dossiê da Revista Crítica cultural que receberá artigos dedicados às relações entre psicanálise e cultura, especialmente aqueles voltados a discutir o lugar do sujeito do inconsciente na cultura e/ou suas interfaces com a cultura.

 
Publicado: 2018-12-17 Mais...
 
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